Um lembrete que eu não estava esperando

Sobre as diferentes réguas com que medimos a própria vida

No voluntariado que costumo fazer, vou buscar alimentos.

Padarias, mercados, lugares que têm sobra ou coisas perto do vencimento.

Hoje foi diferente.

Fiz a separação e depois a entrega desses alimentos para as famílias.

Chegou uma mulher com três filhos pequenos.

O cansaço dela dava para ver de longe.

Ela ainda não estava no cadastro.

Não tinha terminado o processo que dá direito a receber.

Mas veio mesmo assim.

Sem saber se ia sair dali com alguma coisa.

No fim, ela recebeu.

O que ficou comigo

Não foi a entrega em si.

Foi o que aconteceu depois, dentro de mim.

Antes daquele momento, eu estava carregando um monte de coisa na cabeça.

Trabalho.

Prazos.

Umas picuinhas que, na hora, pareciam do tamanho do mundo.

Coisas que, se eu parar para pensar, não vão me levar a lugar nenhum.

E de repente eu estava ali, na frente de uma mulher esperando para saber se ia conseguir levar comida para os filhos.

E as minhas picuinhas encolheram sozinhas.

Não é sobre quem sofre mais

Não quero transformar a vida dela numa medida para diminuir a minha.

Cada perspectiva é a sua.

Cada pessoa enxerga a própria vida a partir do lugar onde está.

As minhas coisas continuam existindo. Não ficam menos importantes só porque existem problemas maiores no mundo.

Mas alguma coisa se reorganiza quando vejo de perto uma necessidade que não dá para relativizar.

A régua que ninguém vê

Fico pensando que talvez o peso de uma vida não se meça pelo tamanho do problema.

Talvez se meça pela distância entre o que a pessoa tem e o que ela espera ter.

Ela tinha muito pouco, e mesmo assim veio, como se ainda houvesse motivo para tentar.

Eu tinha muito mais do que ela, e ainda assim estava ali, preso em coisas que, vistas de fora, não pesavam tanto.

Cada um usa uma régua diferente para medir se a vida está cheia ou vazia.

Ninguém vê a régua do outro.

Só vê o resultado.

O cansaço no rosto.

A pressa.

O silêncio.

E fico pensando por que preciso ver isso de fora para lembrar da minha própria régua.

Por que não consigo sentir sozinho, sem precisar de uma cena assim na minha frente.

Talvez seja só isso

Talvez eu esqueça que tenho.

E, no meio do esquecimento, fico girando em torno do que falta.

Uma reunião que não foi bem.

Um prazo apertado.

Uma coisa pequena que vira grande só porque é a que está na minha frente.

Aquela mulher esperando para saber se ia receber alguma coisa para os filhos não me ensinou nada que eu já não soubesse.

Só me lembrou de uma coisa que eu deveria conseguir lembrar sozinho.

Talvez amanhã eu volte a girar em torno das minhas picuinhas de sempre.

Provavelmente vou.

Mas hoje, pelo menos por hoje, a régua parece estar em outro lugar.

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