Figuras em movimento numa sala ampla, com espaços vazios entre elas

Os espaços vazios da sala

Sobre dança, a vontade de preencher tudo e as coisas boas que chegam sem aviso

Ontem mandei uma mensagem para um amigo.

Nada de especial. Só para saber como ele estava.

Ele respondeu que estava indo a um workshop de dança e me chamou para ir junto.

Eu não tinha planejado nada parecido para aquele dia.

Mas fui.

E ainda bem que fui.

Uma sala, algumas almofadas e uma música calma

O lugar lembrava essas salas onde se pratica yoga.

Um chão acolhedor, algumas almofadas, as pessoas sentadas em círculo.

A facilitadora colocava músicas calmas, introspectivas.

E havia também as pessoas.

Gente que, de alguma forma, estava ali em busca de se conhecer melhor. Conversando, interagindo, participando.

Havia alguma coisa boa naquele ambiente.

O exercício dos espaços vazios

Em determinado momento, ela propôs um exercício.

Todos nós estaríamos em movimento pela sala. E a nossa função era ocupar os espaços vazios que fossem aparecendo.

Só que em movimento rápido.

Ocupava um espaço e já saía. Ocupava outro e já saía de novo.

E como todo mundo fazia a mesma coisa ao mesmo tempo, os espaços iam se abrindo e se fechando sem parar, e aquilo, sem que ninguém combinasse, acabava virando uma dança.

Eu achei muito divertido.

Me senti criança.

Me senti leve, feliz por estar fazendo aquilo, vivendo aquele momento com uma intensidade que nem sempre consigo ter no meu dia a dia.

O que apareceu no meio da brincadeira

Foi no meio dessa brincadeira que uma coisa me veio à cabeça.

Enquanto eu procurava o próximo espaço vazio para ocupar, percebi que aquilo tinha muito a ver comigo.

Não digo que aquilo define quem eu sou. Mas reconheci ali uma forma minha de me comportar.

Eu gosto de resolver problemas.

Gosto de encontrar soluções.

Gosto de deixar as coisas limpas, organizadas, no lugar.

E, quando olho para a minha rotina, vejo o mesmo movimento. Passo o dia no trabalho e, quando o trabalho termina, vou para os meus projetos pessoais. Estou quase sempre querendo produzir alguma coisa, aproveitar o tempo que tenho.

Como se cada espaço vazio do meu dia também precisasse ser ocupado.

Já escrevi aqui sobre a criança que nunca parou de varrer.

A diferença que eu senti

O curioso é que, naquela sala, eu estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Vendo um espaço vazio e indo até ele.

Mas a sensação era completamente outra.

Não havia nada para resolver. Nada para terminar. Nada para deixar pronto.

Era só o movimento. E eu estava me divertindo com ele.

Quando o exercício terminou, eu estava mais leve.

E fiquei pensando em como o mesmo gesto pode me cansar num lugar e me descansar em outro.

As coisas boas que chegam sem aviso

Também fiquei pensando em como tudo aquilo aconteceu.

Completamente ao acaso.

Uma mensagem para um amigo, um convite, e de repente eu estava numa sala, me sentindo criança.

Não sei se preciso de mais equilíbrio. Nem sei se essa é a palavra.

Sei que existe o trabalho. Existem as coisas que quero construir.

E existe também isso.

Uma sala.

Uma música.

Algumas pessoas.

E a possibilidade de, por algum tempo, não precisar fazer nada além de estar ali.

Um pouco mais eu

Nos últimos dias tenho sentido uma coisa difícil de explicar.

Tenho me sentido mais eu.

Como se isso fosse uma coisa que se pratica, e eu estivesse praticando um pouco mais a cada dia.

Não sei se a dança tem a ver com isso. Talvez ela apenas tenha colocado diante de mim, de um jeito divertido, uma coisa que eu já vinha percebendo.

Sei que ontem, por algum tempo, ocupei espaços vazios só pelo prazer de ocupá-los.

E saí de lá mais leve do que entrei.

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