A criança que nunca parou de varrer
Sobre produtividade, vigilância e o descanso que nunca aprendi a ter
Tinha sete ou oito anos.
A escola ficava perto de casa. Meu irmão, dois anos mais novo, vinha comigo. Meu pai e minha mãe estavam trabalhando e, nesse intervalo antes de eles chegarem, eu cuidava dele.
Varria a casa.
Ajudava no que precisava.
Na época, aquilo não parecia pesado.
Era simplesmente a vida.
Mas fui percebendo, muitos anos depois, que aquela criança nunca parou completamente de varrer.
O estado de vigilância que nunca desligou
Hoje, como adulto, noto uma coisa em mim que ainda me acompanha.
Tenho dificuldade em simplesmente não fazer nada.
Não é falta de cansaço.
Não é falta de vontade de descansar.
É uma sensação que nasce quase automaticamente, como se, ao parar, eu estivesse desperdiçando tempo.
Sentar sem fazer nada parece errado.
Ficar no ócio parece irresponsável.
E, quando não existe uma tarefa importante, a inquietação encontra tarefas pequenas.
Uma superfície que precisa ser limpa.
Um objeto fora do lugar.
Uma gaveta para organizar.
Eu me levanto e faço.
Não porque estivesse planejado.
Mas porque o silêncio interno parece precisar ser preenchido.
Percebi isso há muitos anos.
Hoje, com mais consciência, consigo enxergar de onde talvez venha essa necessidade. E, aos poucos, estou aprendendo a olhar para ela com mais gentileza, sem me julgar por sentir o que sinto.
Quando observo essa inquietação com calma, encontro aquela criança de oito anos.
Uma criança que precisava estar atenta.
Que tinha responsabilidades.
Que não podia simplesmente relaxar porque havia alguém para cuidar.
Aquele estado de vigilância era necessário.
O problema é que ninguém avisou ao meu corpo que aquela fase terminou.
Quando descansar parece perigoso
Existe uma diferença entre não conseguir descansar porque há muito para fazer e não conseguir descansar porque o corpo aprendeu que relaxar nunca foi completamente seguro.
Durante muito tempo achei que eu apenas gostava de estar ocupado.
Hoje começo a suspeitar que talvez eu nunca tenha aprendido a desligar.
São coisas muito diferentes.
Algumas responsabilidades terminam.
O estado de alerta, às vezes, não.
O corpo continua vivendo num lugar que já não existe.
Quando a produtividade vira identidade
Com o tempo, fui percebendo que construí uma relação estranha com a produtividade.
Ela deixou de ser apenas uma forma de realizar coisas.
Passou a ser uma forma de medir o meu valor.
Uma tarefa termina.
Logo começo outra.
Um projeto acaba.
Já estou pensando no próximo.
Quase nunca permaneço naquele pequeno espaço entre uma coisa e outra.
E fui descobrindo que esse espaço tem um nome.
Chama-se vida.
Porque viver não acontece apenas enquanto produzimos.
Também acontece na espera.
No silêncio.
Na pausa.
Naqueles momentos em que nada extraordinário está acontecendo e, ainda assim, tudo está exatamente como deveria estar.
Às vezes alguma coisa para.
Não porque eu queira.
Mas porque ainda não chegou a hora.
E a minha tendência é tentar empurrar.
Preencher.
Compensar.
Talvez justamente porque esperar ainda desperta em mim um desconforto antigo.
E talvez seja exatamente isso que a vida esteja tentando me ensinar.
O que ainda estou aprendendo
Não escrevo este texto porque encontrei uma resposta.
Escrevo porque finalmente consegui enxergar a pergunta.
Estou aprendendo que descansar não é o oposto de ser produtivo.
Que o ócio não é tempo perdido.
Que sentar sem fazer nada pode ser, por si só, uma forma de cuidado.
A criança que segurava a vassoura fez o que precisava fazer.
Cuidou da casa.
Cuidou do irmão.
Fez o melhor que podia com os recursos que tinha.
Hoje ela já não precisa fazer isso.
Talvez agora o cuidado seja outro.
Talvez seja justamente deixar a vassoura encostada na parede.
Sentar por alguns minutos.
Respirar.
E descobrir, pouco a pouco, que a casa continua de pé mesmo quando ninguém está varrendo.