O vazio veio junto na mala

Sobre mudanças, raízes e o lugar onde finalmente comecei a me sentir em casa

Durante muito tempo eu quis conhecer o mundo.

Não era uma vontade de fugir.

Era curiosidade.

Sempre gostei da ideia de descobrir lugares novos, culturas diferentes, pessoas com histórias completamente diferentes da minha.

Explorar sempre fez parte de quem eu sou.

E, durante muitos anos, alimentei esse sonho.

Até que um dia tomei uma decisão que mudaria a minha vida.

Mudei de país.

Não foi um impulso.

Foi uma escolha construída ao longo do tempo.

Quando finalmente aconteceu, senti aquela mistura de entusiasmo, liberdade e descoberta que acompanha todo grande recomeço.

Parecia que uma parte importante de mim finalmente estava vivendo aquilo que sempre desejou.

Mas o vazio veio junto na mala.

O que eu não esperava encontrar

Nos primeiros meses, tudo era novidade.

As ruas.

Os hábitos.

As pessoas.

A sensação de estar construindo uma vida completamente nova.

Eu gostava daquilo.

Ainda gosto.

Nunca me arrependi da mudança.

Mas, conforme a novidade foi deixando de ocupar todos os espaços, comecei a perceber uma sensação difícil de explicar.

Não era apenas saudade.

Sentir falta da família e dos amigos é natural.

Era algo mais profundo.

Como se existisse uma parte de mim que ainda não tivesse encontrado onde repousar.

Foi quando comecei a perceber que uma mudança de cenário nem sempre significa uma mudança por dentro.

O lugar nunca foi o problema

Hoje olho para trás com mais clareza.

Viajar continua sendo uma das coisas que mais gosto de fazer.

Conhecer lugares novos continua despertando em mim o mesmo entusiasmo de sempre.

Isso nunca mudou.

O que mudou foi a expectativa que eu colocava nessa experiência.

Sem perceber, talvez eu esperasse que um novo lugar também resolvesse aquilo que eu ainda não compreendia dentro de mim.

Mas nenhum lugar consegue fazer sozinho esse trabalho.

Podemos mudar de cidade.

De emprego.

Até de país.

Mas continuamos levando conosco aquilo que ainda não encontramos dentro de nós.

Quando as raízes começam a crescer

Durante muito tempo senti como se ainda estivesse de passagem.

Como se uma parte de mim permanecesse pronta para partir outra vez.

Hoje percebo que isso mudou.

Não porque o lugar mudou.

Nem porque a vida ficou perfeita.

Mudou porque, aos poucos, alguma coisa dentro de mim começou a criar raízes.

É uma sensação difícil de explicar.

Não significa que deixei de sentir saudades.

Nem que deixei de amar o lugar de onde vim.

Significa apenas que hoje existe mais segurança dentro de mim.

Como se eu finalmente tivesse permitido que a vida acontecesse exatamente onde estou.

Onde fica a nossa casa?

Durante muito tempo achei que a sensação de estar em casa dependia do lugar onde eu estivesse.

Hoje não tenho tanta certeza.

Percebo que algumas pessoas conseguem sentir pertencimento em quase qualquer lugar.

Outras passam a vida inteira procurando esse lugar sem nunca encontrá-lo.

Talvez a diferença não esteja no endereço.

Talvez esteja nas raízes.

Ainda sinto saudades.

Ainda existem dias em que penso na família, nos amigos e na vida que ficou para trás.

Isso faz parte.

Mas hoje essa saudade já não impede que eu também me sinta em casa onde estou.

Talvez seja isso que eu procurava sem perceber.

Não um novo país.

Nem uma nova cidade.

Mas a sensação de finalmente criar raízes dentro de mim.

Talvez a única coisa que eu realmente precisava desfazer não fosse a mala.

Era uma parte de mim que ainda não tinha encontrado onde descansar.

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