Os cachorros na praia já sabem

Sobre presença e o hábito de viver em outro lugar

Tem algo especial e admirável em observar cachorros correndo na praia.

Eles correm em direção às ondas como se não existisse mais nada no mundo além daquele instante. Estão totalmente dentro do momento presente, correndo, brincando, entrando e saindo do mar sem transformar aquilo em outra coisa.

Não estão pensando no que aconteceu ontem. Não estão preocupados com o que pode acontecer semana que vem.

Estão ali. Completamente.

As crianças pequenas também são assim.

Quando minha filha era menor, passávamos horas na praia brincando, entrando no mar, caminhando na areia, inventando coisas sem importância nenhuma.

E talvez justamente por isso aqueles momentos tenham ficado tão vivos na memória.

Não existia produtividade. Não existia pressa. Ninguém estava tentando transformar o dia em alguma coisa maior do que ele já era.

E, ainda hoje, essas lembranças parecem mais vivas do que muitos momentos que teoricamente deveriam ter sido maiores.

Quase nunca estamos completamente onde estamos

Talvez o desconforto venha justamente daí.

Da sensação de que quase nunca estamos completamente onde estamos.

O corpo está sentado numa mesa de jantar, mas a cabeça está revivendo uma conversa antiga. Ou ensaiando uma discussão que talvez nunca aconteça. Ou tentando resolver problemas futuros que ainda nem existem.

O momento presente recebe só uma parte de nós. E às vezes uma parte muito pequena.

Objetivos sem presença viram ansiedade com prazo

Ter objetivos não é o problema.

O problema é quando a vida inteira começa a existir apenas em função do próximo lugar.

Você corre atrás de uma coisa. Conquista. E antes mesmo de sentir que chegou, a cabeça já está em outra.

Outra meta. Outro plano. Outra preocupação.

Como se o presente fosse só uma sala de espera permanente para algum momento futuro onde finalmente tudo vai fazer sentido.

Só que a vida não acontece lá na frente.

Ela acontece durante a jornada. Nas partes da vida que ninguém fotografa. E é exatamente aí que nos esquecemos de viver.

A jornada só existe quando você realmente está nela

Hoje eu penso muito menos no destino final das coisas.

Não porque deixei de sonhar ou construir objetivos. Mas porque comecei a perceber que quase tudo o que importa acontece no caminho.

Uma conversa distraída. Um fim de tarde qualquer. A luz batendo na água. O silêncio depois de um dia cheio. Minha filha correndo na areia quando ainda era pequena ou o seu sempre sorriso maravilhoso.

São momentos simples. Mas curiosamente são eles que permanecem.

Talvez porque foram os poucos momentos em que eu realmente estava ali.

Os cachorros na praia já sabem disso

Eles não estão esperando a onda perfeita.

Não estão tentando transformar o momento em outra coisa.

Só entram no mar como se aquele instante, daquele jeito, já bastasse.

E talvez exista alguma sabedoria nisso.

Talvez presença seja um pouco mais simples do que a gente costuma imaginar.

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