Os Espelhos Que Encontramos nas Outras Pessoas
Sobre julgamentos, projeções e o trabalho que só nós podemos fazer
Essa semana foi intensa.
Tive situações com pessoas próximas, família, amigos e outras pessoas ao meu redor, e fui percebendo uma coisa que já conhecia, mas que voltou com força: muitas das coisas que me incomodam nos outros acabam revelando algo que ainda preciso compreender dentro de mim.
Não é fácil admitir isso.
É muito mais confortável acreditar que o problema está na outra pessoa. Avaliar, julgar internamente, ficar remoendo o comportamento de alguém.
Fazemos isso tão rapidamente que, muitas vezes, nem percebemos.
Mas quando parei para observar com mais honestidade, comecei a notar um padrão.
Alguns dos incômodos mais persistentes que sinto em relação aos outros parecem apontar para partes de mim que ainda não olhei com atenção suficiente.
O espelho que ninguém pediu
Existe uma ideia que me acompanha há algum tempo e que essa semana ficou ainda mais clara.
Quando algo numa outra pessoa nos incomoda profundamente, a ponto de continuarmos pensando naquilo, julgando, reagindo ou carregando aquela situação por horas ou dias, talvez exista ali algo mais do que apenas o comportamento do outro.
Talvez exista uma oportunidade de olhar para dentro.
Nem todo incômodo é projeção.
Nem toda reação revela uma ferida.
Mas muitas vezes aquilo que desperta uma emoção intensa em nós aponta para algo que ainda está vivo dentro de nós.
O incômodo pode ser um sinal.
Um espelho.
E esse espelho não aparece apenas nos comportamentos.
Ele também pode surgir nas aparências, nas escolhas, nos corpos e na forma como as pessoas se apresentam ao mundo.
Quando julgamos alguém pela maneira como se veste, pelo peso, pela postura ou pela forma como vive, isso também pode trazer informações valiosas sobre nós mesmos.
Às vezes é uma insegurança antiga.
Às vezes é uma crença que nunca foi questionada.
Às vezes é algo que ainda não resolvemos na relação com o nosso próprio corpo ou com a nossa própria história.
Isso não significa que a outra pessoa esteja certa ou errada.
Significa apenas que a reação que surgiu dentro de nós merece ser observada.
O que vi na minha filha
Tem uma parte disso que mexeu especialmente comigo essa semana.
Observando minha filha, percebi que algumas atitudes dela me incomodavam de um jeito muito específico.
E quando resolvi olhar mais de perto, percebi algo desconfortável.
Aquelas atitudes me lembravam partes da minha própria infância.
Comportamentos.
Reações.
Padrões que eu conhecia muito bem.
E então veio um momento difícil de ignorar.
Percebi que estava prestes a fazer com ela exatamente aquilo que foi feito comigo.
Como se um padrão antigo estivesse tentando se repetir sozinho, sem pedir autorização.
Naquele instante ficou claro que o trabalho não era mudar ela.
O trabalho era compreender o que aquilo ainda despertava dentro de mim.
E essa talvez seja uma das formas mais difíceis de honestidade.
Porque exige que deixemos de procurar o problema fora e passemos a investigar aquilo que ainda carregamos dentro.
Se fosse neutro, talvez passasse despercebido
Penso muito nisso.
Quando algo não encontra nenhuma ressonância dentro de nós, geralmente passa sem grande impacto.
Podemos concordar ou discordar.
Gostar ou não gostar.
Mas seguimos em frente.
Já os incômodos que permanecem, os julgamentos que voltam repetidamente à mente e as reações que parecem maiores do que a situação em si talvez estejam apontando para algo mais profundo.
Talvez estejam mostrando um lugar que ainda precisa de atenção.
E isso vale para muitas áreas da vida.
Para comportamentos.
Para aparências.
Para escolhas.
Para formas diferentes de pensar, agir e viver.
Quanto mais intensa a reação, maior pode ser a oportunidade de observação.
Ainda tem muito trabalho a fazer
Saio dessa semana sabendo que ainda existe muita coisa para olhar dentro de mim.
E houve um tempo em que isso teria parecido pesado.
Hoje parece mais uma bússola.
Cada situação que me tira do eixo, cada pessoa que desperta uma reação forte, pode estar mostrando um caminho que ainda não percorri completamente dentro de mim.
Não agradeço pelos espelhos no momento em que aparecem.
Mas quase sempre agradeço depois.