Você Não é Só O Que Come
Sobre a dieta que ninguém te ensinou a cuidar
Tem uma frase antiga que diz que somos o que comemos.
Mas e o que assistimos? O que ouvimos? O que lemos? O que deixamos rolar no feed antes de dormir?
Ninguém fala muito sobre isso.
Durante muito tempo eu não prestava atenção nisso. Consumia o que aparecia. Filmes pesados, thrillers, músicas com letras agressivas, jornal todos os dias, redes sociais sem filtro. Era o que estava disponível. Era o que todo mundo consumia.
Até que comecei a perceber que tinha alguma coisa estranha acontecendo.
Medos que eu não sabia de onde vinham. Uma ansiedade de fundo sem causa clara. Uma sensação constante de que o mundo é perigoso, que as pessoas são más, que algo ruim está sempre à espera logo ali na esquina.
E então comecei a ligar os pontos.
A mente guarda tudo
A gente tende a achar que aquilo que consome é apenas entretenimento. Que entra e sai. Que não deixa marcas.
Mas a mente não funciona exatamente assim.
Embora saibamos racionalmente distinguir realidade e ficção, o cérebro reage emocionalmente a muitas experiências como se elas fossem reais. Ele processa, armazena e vai construindo uma visão de mundo a partir de tudo aquilo que alimentamos repetidamente.
Filmes violentos, notícias de catástrofes, músicas carregadas de raiva ou vazio, livros que reforçam os nossos medos, redes sociais cheias de comparação e conflito.
Tudo isso vai se acumulando em camadas mais profundas. No inconsciente. Um lugar que não vemos, mas cujos efeitos continuamos a sentir.
Frequência importa mais do que parece
Comecei a perceber isso primeiro através da música.
Existe uma diferença real entre ouvir algo que gera tensão e ouvir algo que cria espaço dentro de você. Não precisa ser nada místico. Basta observar honestamente o que acontece no corpo depois de algum tempo exposto a cada um desses estados.
A respiração muda.
O estado mental muda.
A forma como você se relaciona com as pessoas muda.
E quando passamos horas por dia dentro de um determinado estado emocional, ele começa a parecer normal. Deixamos de perceber que existem outras formas de sentir e experimentar a vida.
A TV e o noticiário merecem atenção especial
Grande parte da programação informativa é construída em torno de um princípio simples: medo e urgência prendem a atenção.
Notícias negativas costumam gerar mais interesse. Conflitos geram mais envolvimento. E assim, quem passa horas consumindo esse tipo de conteúdo acaba sendo exposto repetidamente a uma visão de mundo onde tudo parece piorar, onde existe sempre uma nova ameaça e onde o futuro parece constantemente incerto.
Isso não passa simplesmente pela mente e desaparece.
Fica no corpo como tensão.
Fica na mente como padrão.
E, com o tempo, começa a distorcer a forma como enxergamos a realidade.
Talvez isso também seja amor-próprio
Talvez uma das maiores expressões de amor-próprio seja prestar atenção ao que permitimos entrar na nossa mente.
Assim como escolhemos os alimentos que colocamos no corpo, também podemos escolher as histórias, mensagens, imagens e conversas que alimentam os nossos pensamentos.
Nem sempre temos controle sobre tudo aquilo que chega até nós.
Mas podemos desenvolver consciência sobre aquilo que decidimos cultivar.
Porque, no fim das contas, cada conteúdo que consumimos fortalece alguma coisa dentro de nós.
A questão é: o quê?
Isso vale pra tudo
Filmes, séries, músicas, livros, podcasts, perfis que seguimos, grupos dos quais participamos e até as conversas que escolhemos ter.
Tudo é dieta.
Tudo alimenta alguma coisa dentro de nós.
A questão não é evitar tudo o que é negativo ou difícil.
A vida tem os seus desafios e eles fazem parte do nosso crescimento.
O importante é perceber aquilo que estamos alimentando diariamente dentro de nós.
Porque aquilo que alimentamos com frequência tende a crescer.
Mais medo ou mais confiança?
Mais ansiedade ou mais presença?
Mais tensão ou mais paz?
Consumo consciente não é uma lista de proibições.
É apenas desenvolver o hábito de fazer uma pergunta antes de apertar o play, antes de abrir o feed ou antes de ligar a televisão:
O que eu estou deixando entrar?