A vida que nunca vivi
Sobre engrenagens, versões de nós mesmos e a pergunta que nunca poderá ser respondida
Estava a tomar sol em silêncio.
Um desses momentos em que a mente parece descansar, mas acaba encontrando caminhos que normalmente ficam escondidos.
Sem perceber, comecei a revisitar decisões antigas. Caminhos que escolhi. Caminhos que deixei passar.
E então surgiu uma pergunta que, acredito, quase todos nós já fizemos alguma vez.
E se eu tivesse feito diferente?
Não tentei respondê-la.
Apenas fiquei ali, observando tudo o que ela despertava.
A engrenagem que só aparece quando olhamos para trás
Há uma coisa curiosa na vida.
Enquanto a estamos vivendo, tudo parece desorganizado.
O emprego que parecia um erro.
A relação que terminou antes da hora.
A decisão tomada com medo.
O encontro inesperado.
Naquele momento, cada acontecimento parece isolado.
Mas, quando olho para trás, começo a enxergar algo diferente.
Como uma engrenagem.
Cada peça parecia girar sozinha.
Hoje percebo que uma colocou a outra em movimento.
Não sei explicar por que algumas coisas só fazem sentido muitos anos depois.
Algumas pessoas chamariam isso de acaso.
Outras, de destino.
Para mim, existe algo de espiritual nisso.
Mas talvez o nome importe menos do que a sensação de perceber que até aquilo que parecia um desvio acabou fazendo parte do caminho.
E é justamente esse caminho que me trouxe até quem sou hoje.
A pergunta que nunca terá resposta
Talvez o problema da pergunta “E se eu tivesse feito diferente?” seja justamente este.
Ela nunca poderá ser respondida.
Ainda assim, passamos anos conversando com uma versão de nós que nunca existiu.
Como se, em algum lugar, houvesse uma vida perfeita esperando para ser comparada com esta.
Talvez exista.
Talvez não.
Nunca saberemos.
E começo a pensar que essa seja uma das maiores armadilhas da mente.
Ela nos faz sentir saudade de uma vida que nunca vivemos.
A única vida que pode mudar
Foi então que percebi outra coisa.
Enquanto imaginava todas as possibilidades do passado, havia uma vida acontecendo exatamente naquele instante.
A minha.
A única que realmente existe.
Talvez nenhuma escolha tenha sido perfeita.
Talvez algumas pudessem mesmo ter sido melhores.
Mas todas elas construíram a pessoa que hoje faz novas escolhas.
E talvez seja isso que realmente importa.
Porque não posso voltar para viver outra versão de mim.
Só posso cuidar desta.
O sol continuava no mesmo lugar
Ali, de olhos fechados, alguma coisa foi relaxando por dentro.
Não porque encontrei respostas.
Mas porque deixei de exigir que elas existissem.
Talvez algumas perguntas não apareçam para serem resolvidas.
Talvez apareçam apenas para mostrar onde ainda estamos presos.
Enquanto pensava nisso, o sol continuava aquecendo a pele.
Nada tinha mudado do lado de fora.
Mas alguma coisa tinha encontrado um pouco mais de silêncio aqui dentro.
Talvez exista uma versão de mim que fez escolhas completamente diferentes.
Talvez ela tenha vivido uma vida extraordinária.
Ou talvez tenha cometido erros que eu nunca conhecerei.
Nunca vou saber.
E, pela primeira vez, percebi que talvez isso não tenha importância.
Porque ela nunca poderá viver esta vida.
Assim como eu nunca poderei viver a dela.
Então talvez a única versão de mim que realmente precise da minha atenção seja esta.
A que continua respirando.
A que continua escolhendo.
A que, neste exato momento, ainda está sob o mesmo sol.
Muito boa a analogía e reflexao do texto. Acho que é exatamente isso, a gestão não é fácil dos pensamentos relativamente ao passado, mas com conciencia chegamos a algum lado da vida no presente.