Tem pais que confundem amor com controle

Outro dia estava pensando na minha filha. Ela está entrando na adolescência, começando a fazer escolhas, a formar opiniões, a construir o próprio caminho. E, em algum momento, veio um pensamento quase automático: “eu sei o que é melhor para ela”. Logo depois, veio a dúvida.

Existe uma diferença sutil entre cuidar e controlar, e nem sempre ela é fácil de perceber, principalmente quando falamos de pais controladores. Porque, quase sempre, o controle não aparece como controle, ele vem disfarçado de cuidado.

A frase “eu só quero o seu bem” parece inocente, até bonita dependendo de como é dita. Mas, em muitos casos, ela carrega outra coisa junto, mais silenciosa: a dificuldade de aceitar que o outro pode viver uma vida que não passa pelo nosso entendimento.

Quando o cuidado vira controle

Quando o assunto é família, isso fica ainda mais evidente. Pais controladores costumam acreditar que sabem o que é melhor. E, em parte, isso faz sentido. Eles têm mais experiência, já viveram mais coisas. Mas experiência não é verdade, é só um conjunto de vivências filtradas por uma única perspectiva.

O problema começa quando esse “eu sei o que é melhor” deixa de ser orientação e vira direção. Quando o cuidado vira caminho fechado. Quando o amor, sem perceber, passa a exigir que o outro siga uma rota específica para ser considerado seguro.

O medo por trás das escolhas

Em algum momento da vida, todo filho percebe algo desconfortável: nem todo conselho vem de compreensão. Alguns vêm de medo. Medo de errar, medo de ver o outro sofrer, medo do que foge do controle.

E talvez seja aí que a coisa começa a mudar de lugar. Porque, muitas vezes, não é sobre o que é melhor para o outro: é sobre o que é mais suportável para quem orienta.

Não é exatamente uma escolha consciente. É mais sutil que isso.

A gente tenta reduzir o desconhecido ao que consegue entender. E, sem perceber, começa a tentar ajustar a vida do outro a esse limite.

Quando a vida não cabe em planos

Mas a vida não funciona assim.

Minha filha não cabe na minha experiência de vida. Assim como eu não cabi na dos meus pais. E provavelmente nunca caberei completamente em nenhuma expectativa que tentem projetar sobre mim.

As pessoas não cabem em planos. Ainda assim, a gente insiste.

Existe outra forma de amar?

Talvez crescer não seja romper com os conselhos dos outros, mas aprender a escutar sem se perder neles. E talvez amar não seja guiar alguém até um destino seguro, mas permitir que essa pessoa descubra o próprio caminho, mesmo que ele não faça sentido pra gente no começo.

No fim, o que realmente está em jogo

Talvez seja isso. A maturidade não vem de ter as respostas certas. Vem de perceber, no meio do medo e da insegurança, que cuidar de alguém também é uma forma de nos cuidarmos. Que ao tentar proteger a minha filha do mundo, aprendo, aos poucos, a enfrentar o meu.

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