O roteiro que eu escrevi para a vida

Sobre controle, idealização e o que acontece quando as coisas não seguem o plano

Tenho me deparado com uma coisa dentro de mim que não é fácil de admitir.

Gosto de controlar.

Não no sentido de dominar as pessoas. Mas no sentido de ter uma imagem clara de como as coisas deveriam acontecer.

De como uma conversa deveria correr.

De como uma situação deveria se resolver.

De como alguém deveria se comportar.

Tenho um roteiro interno para quase tudo.

E quando as coisas seguem esse roteiro, tudo bem.

Quando não seguem, aparece uma decepção que às vezes nem consigo explicar direito.

Porque, no fundo, eu sei que a vida não me deve nenhum roteiro.

Mas uma parte de mim ainda age como se devesse.

A idealização que fazemos sem perceber

Idealizamos sem perceber.

Idealizamos pessoas.

Idealizamos situações.

Idealizamos como um dia deveria correr, como uma relação deveria se desenvolver, como alguém que amamos deveria ser.

E quando a realidade aparece diferente do que imaginamos, o choque não é exatamente com a realidade.

É com a distância entre o que esperávamos e o que encontramos.

Tenho conversado sobre isso com pessoas próximas.

E o que percebo é que essa decepção nem sempre é sobre o outro.

Às vezes é sobre a imagem que eu criei do outro.

E aí fico me perguntando:

Quando me decepciono com alguém, estou vendo essa pessoa de verdade?

Ou estou vendo a distância entre ela e a versão dela que eu havia construído?

Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de controle.

Não tentar mandar no outro.

Mas esperar que ele corresponda àquilo que imaginamos.

O roteiro que também escrevemos para os outros

Isso me fez perceber uma coisa ainda mais desconfortável.

Talvez eu não tenha escrito apenas um roteiro para a minha vida.

Talvez tenha escrito roteiros para as pessoas que fazem parte dela.

Esperamos que determinada pessoa diga determinada coisa.

Que alguém reaja de determinada maneira.

Que uma conversa termine como imaginamos.

Que uma pessoa que amamos faça determinada escolha.

E quando isso não acontece, sentimos que alguma coisa saiu do lugar.

Mas talvez a pessoa não tenha feito nada de errado.

Talvez ela apenas tenha deixado de interpretar o papel que havíamos escrito para ela.

O que vi na minha filha

Foi pensando nisso que uma situação com a minha filha me fez olhar para dentro com mais atenção.

Às vezes noto nela coisas que me incomodam.

Detalhes pequenos.

Coisas que talvez ninguém mais perceba, mas que em mim provocam uma reação maior do que a situação parece merecer.

E quando fui olhar para esse incômodo com mais honestidade, percebi algo que me surpreendeu.

Talvez algumas dessas coisas me incomodem justamente porque me lembram de mim.

De situações que vivi.

De coisas que alguém tentou corrigir em mim quando eu era pequeno.

De padrões que ficaram gravados e que, agora, podem aparecer projetados nela.

E aí percebi que estava perto de fazer com ela algo que, de alguma forma, já tinham feito comigo.

Não por maldade.

Não de propósito.

Mas porque é o que o padrão conhece.

Meus pais fizeram o melhor que puderam.

Tenho certeza disso.

Mas eu não preciso repetir o roteiro.

Talvez essa seja uma das formas mais difíceis de quebrar um padrão.

Perceber que aquilo que estamos tentando corrigir no outro talvez seja justamente algo que ainda estamos aprendendo a aceitar em nós.

Por que queremos controlar

Ainda estou tentando entender isso.

Talvez controlar seja uma forma de evitar a surpresa.

De não ser pego desprevenido.

De tentar garantir que as coisas aconteçam da forma que esperamos para não precisarmos lidar com o inesperado.

Talvez seja uma forma de cuidado que foi além do necessário.

Ou talvez seja simplesmente medo.

Medo de que, se as coisas não seguirem o roteiro, algo importante se perca.

Mas o que percebo cada vez mais é que tentar controlar tudo não me protege do que eu temo.

Às vezes apenas aumenta o peso de ter que lidar com aquilo que não posso controlar.

E a vida sempre encontra uma forma de mostrar isso.

O que acontece quando solto

Ainda estou aprendendo.

Ainda me pego querendo que as coisas aconteçam de um jeito específico.

Ainda sinto aquela decepção quando o roteiro não é seguido.

Mas cada vez mais consigo perceber o que está acontecendo antes de reagir.

E nesse pequeno espaço entre o gatilho e a reação, existe uma pergunta que tem me ajudado.

Isso que estou sentindo é sobre o que está acontecendo agora?

Ou é sobre o roteiro que eu escrevi para esse momento?

Quase sempre existe alguma coisa do roteiro ali.

Uma expectativa.

Uma imagem.

Uma ideia de como deveria ser.

E talvez seja justamente aí que exista uma possibilidade de escolha.

Não em parar de ter expectativas.

Não em deixar de planejar.

Não em aceitar tudo passivamente.

Mas em perceber quando estamos sofrendo porque a realidade não corresponde àquilo que imaginamos.

Talvez liberdade não seja viver sem roteiro.

Talvez seja lembrar que o roteiro é nosso.

E que talvez a vida comece justamente quando paramos de tentar escrevê-la por inteiro.

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