Nem toda emoção fala sobre o presente

Sobre as histórias que a mente cria e as memórias que o corpo ainda guarda

Neste fim de semana vivi uma situação que despertou um desconforto dentro de mim.

Não aconteceu nada de extraordinário. Não houve conflito. Não houve uma grande discussão.

Mas alguma coisa tocou num lugar que eu nem sabia que ainda estava ali.

O curioso é que a emoção chegou antes de qualquer pensamento.

Primeiro veio a sensação.

Só depois a minha mente começou a tentar explicar o que estava acontecendo.

Foi aí que percebi uma coisa que nunca tinha observado com tanta clareza.

O corpo sente primeiro

Naquela noite acordei de madrugada e demorei bastante para voltar a dormir.

Era como se existissem duas conversas acontecendo ao mesmo tempo dentro de mim.

Uma parte começava a ligar pontos, imaginar cenários, interpretar pequenos detalhes e construir uma história que, naquele momento, parecia fazer todo o sentido.

A outra olhava para tudo aquilo com mais calma.

Não negava o que eu estava sentindo.

Mas também não aceitava imediatamente que aquela emoção representasse a realidade.

Enquanto observava esse diálogo interno, uma pergunta apareceu.

E se o corpo estivesse apenas lembrando de algo antigo?

Comecei a pensar que talvez nem toda emoção fale sobre o presente.

Talvez algumas sejam apenas memórias que o corpo ainda guarda.

Memórias que não aparecem em palavras.

Aparecem em sensações.

Em apertos no peito.

Em desconfortos difíceis de explicar.

O corpo, muitas vezes, reconhece uma emoção antes mesmo de a mente compreender o que está acontecendo.

Quando a mente tenta explicar o que o corpo sentiu

Percebi que, depois que o corpo reage, a mente faz aquilo que sabe fazer melhor.

Ela procura explicações.

Constrói narrativas.

Preenche os espaços vazios.

Dá sentido ao que ainda não compreende.

O problema é que ela faz isso muito rápido.

E, muitas vezes, a primeira história que ela cria parece tão convincente que esquecemos de perguntar se ela realmente corresponde ao que está acontecendo.

Talvez seja por isso que tantas vezes sofremos mais com as interpretações do que com os próprios acontecimentos.

O espaço entre sentir e reagir

Desta vez fiz diferente.

Não porque fosse fácil.

Na verdade, foi bastante difícil.

Mas, em vez de reagir imediatamente, decidi esperar.

Observei o que estava acontecendo dentro de mim.

Deixei que a emoção existisse sem transformá-la numa conclusão.

Respirei.

Dormi pouco.

Pensei bastante.

E, quando senti que já não era apenas a emoção falando, tive uma conversa honesta.

Não para descobrir quem tinha razão.

Mas para compartilhar o que havia acontecido dentro de mim.

Foi uma conversa tranquila.

Madura.

Respeitosa.

E, no fim, percebi que a realidade era muito mais simples do que a história que a minha mente havia construído durante a madrugada.

A emoção era verdadeira. Mas a narrativa construída em volta dela não necessariamente.

Talvez seja isso que chamamos de maturidade

Durante muito tempo achei que amadurecer emocionalmente significava deixar de sentir medo, insegurança ou desconforto.

Hoje começo a desconfiar que não é isso.

Talvez maturidade seja sentir tudo isso e, ainda assim, não entregar imediatamente o volante à primeira história que a mente inventa.

As emoções merecem ser escutadas.

Elas sempre trazem alguma informação importante.

Mas talvez não sejam, por si só, um retrato fiel da realidade.

Às vezes, elas apenas mostram que existe alguma parte de nós pedindo atenção.

Não para que mudemos o mundo à nossa volta, mas para que possamos olhar, com mais carinho, para aquilo que ainda vive dentro de nós.

Cuidar de nós também é isso

Hoje penso que cuidar de nós mesmos vai muito além daquilo que normalmente associamos ao bem-estar.

Não é apenas dormir melhor.

Alimentar-se bem.

Meditar.

Ou fazer exercício.

Tudo isso importa.

Mas existe um cuidado mais silencioso.

O de aprender a observar os próprios pensamentos antes de acreditar neles.

O de perceber quando uma emoção está falando do presente e quando talvez seja apenas uma memória antiga encontrando uma situação parecida.

Talvez o verdadeiro trabalho interior não seja impedir que o corpo sinta.

Nem impedir que a mente conte histórias.

Talvez seja criar espaço suficiente para que a consciência possa escutar os dois antes de decidir qual caminho seguir.

Porque a primeira história que a mente conta quase nunca é a mais verdadeira.

E, às vezes, tudo o que uma emoção precisa não é de uma reação.

É apenas de alguém disposto a escutá-la.

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