A espiritualidade que eu estava confundindo com isolamento

Sobre o que ainda existe em nós depois que algumas versões de nós mesmos ficam para trás

Durante algum tempo achei que espiritualidade significava ir para dentro.

Meditar. Observar. Descascar. Analisar os traumas, os padrões, os gatilhos, as crenças.

Ir cavando até encontrar alguma coisa mais verdadeira.

E esse processo foi real.

Foi necessário.

Mudou muita coisa em mim.

Em alguns momentos, porém, comecei a me afastar de situações que antes faziam parte da minha vida.

De algumas amizades.

De alguns ambientes.

De algumas formas de estar com as pessoas.

Não porque tivesse deixado de gostar delas.

Nem porque tivesse deixado de ser a pessoa que sempre fui no trato com os outros.

Continuei sendo bem-humorado.

Continuei gostando de conversar.

Continuei tratando as pessoas bem, fazendo piadas, rindo.

Mas passei a viver mais para dentro.

Como se, para entender algumas coisas em mim, eu precisasse de um certo afastamento da vida que estava acontecendo ao redor.

E foi aí que comecei a questionar.

A cebola e o que ficou

Quando comecei a olhar mais para mim, também comecei a perceber quantas coisas foram sendo construídas ao longo da vida.

Padrões aprendidos.

Crenças que vieram de outras pessoas.

Comportamentos que eu repetia sem saber muito bem por quê.

Uma identidade que foi sendo formada aos poucos.

E aí começou o trabalho de descascar.

Uma camada.

Depois outra.

Depois outra.

Algumas coisas precisavam mesmo ser revistas.

Outras já não faziam sentido.

E, de certa maneira, aquela versão de mim foi ficando para trás.

Não vejo isso como algo ruim.

Algumas versões nossas precisam mesmo morrer para que outras possam aparecer.

Mas talvez eu tenha cometido um pequeno engano no meio desse processo.

Comecei a perceber que nem tudo o que pertencia àquela versão antiga precisava morrer junto com ela.

A vontade de conversar.

A facilidade de brincar com as pessoas.

O bom humor.

A curiosidade sobre a vida do outro.

A vontade de perguntar como alguém está e realmente querer saber.

Aquela conversa que começa sem assunto nenhum e termina sabe-se lá onde.

Por muito tempo, essas coisas fizeram parte da minha vida de maneira tão natural que eu nunca precisei pensar sobre elas.

E agora, com o contato com as pessoas voltando a aparecer mais, comecei a perceber o quanto isso ainda é meu.

Talvez eu estivesse confundindo algumas coisas

Não acho que o meu afastamento tenha sido um erro.

Eu precisava daquele período mais introspectivo.

Precisava ficar sozinho algumas vezes.

Precisava olhar para algumas coisas sem o ruído de fora.

Mas talvez eu tenha confundido, em algum momento, duas coisas diferentes.

Estar sozinho para me ouvir.

E me afastar da vida.

Uma coisa não precisa levar à outra.

Posso olhar para dentro e continuar olhando para fora.

Posso questionar quem fui sem rejeitar tudo o que fui.

Posso mudar sem precisar apagar tudo o que existia antes.

E talvez seja isso que estou começando a perceber agora.

O que acontece quando a gente volta a estar junto

Existe alguma coisa nas conversas que não consigo substituir por reflexão.

Estar com alguém.

Falar sobre qualquer coisa.

Ouvir o que a pessoa tem para contar.

Perguntar como ela está.

Rir de uma coisa que não tinha nenhuma importância.

Falar de um assunto que cinco minutos antes nem existia.

Ouvir uma opinião diferente sem precisar concordar.

Falar sem ficar pensando se aquilo é profundo o suficiente.

Sem escolher o assunto.

Sem precisar chegar a algum lugar.

Sem julgamento do que eu digo ou do que a outra pessoa diz.

Só estar ali.

E talvez isso faça mais bem do que eu costumava perceber.

Porque, quando convivemos com outras pessoas, alguma coisa em nós também se movimenta.

A gente lembra que existem outras formas de olhar para as coisas.

Descobre alguma coisa nova.

Escuta uma história.

Ri.

Às vezes ajuda.

Às vezes é ajudado.

E, no meio disso tudo, simplesmente vive.

Talvez algumas coisas sejam simplesmente minhas

Tenho pensado muito nisso.

Naquela versão de mim que ficou para trás, havia coisas que eu não quero mais carregar.

Formas de pensar.

Alguns padrões.

Algumas necessidades.

Algumas maneiras de me relacionar comigo mesmo.

Essas coisas realmente ficaram para trás.

Mas havia outras que eu nunca precisei abandonar.

Elas só estavam tão ligadas àquela versão de mim que talvez eu não tivesse percebido que eram mais profundas do que a identidade que eu estava deixando para trás.

O humor continua sendo meu.

A vontade de conversar continua sendo minha.

A simpatia continua sendo minha.

A curiosidade pelas pessoas continua sendo minha.

A vontade de rir e de fazer rir continua sendo minha.

E talvez eu esteja descobrindo que algumas coisas não precisam ser superadas.

Talvez precisem apenas ser reconhecidas.

Ainda estou entendendo

Não acho que tenha encontrado uma resposta definitiva.

Talvez eu continue precisando dos meus momentos de silêncio.

Talvez continue precisando me afastar algumas vezes para entender o que estou vivendo.

Mas hoje consigo olhar para isso de outra maneira.

A introspecção não precisa significar isolamento.

E mudar não significa abandonar tudo aquilo que fomos.

Talvez uma parte do autoconhecimento seja justamente conseguir distinguir o que em nós precisava ser deixado para trás daquilo que, apesar de ter vindo de uma versão antiga, continua sendo genuinamente nosso.

Talvez eu tenha passado algum tempo descascando a cebola sem perceber que algumas coisas não eram casca.

São parte de mim.

E continuam sendo.

Talvez seja só isso que estou começando a perceber.

Que algumas partes de quem eu fui morreram.

Mas nem tudo precisava morrer com elas.

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