A pessoa que você ama não é sua
Sobre o que acontece dentro de nós quando o amor encontra a necessidade de possuir
Estava numa conversa com a minha parceira.
Uma dessas conversas naturais sobre as vidas que tivemos antes de estar juntos. Relacionamentos antigos, histórias, pessoas que passaram.
Em determinado momento, ela mencionou alguém.
A forma como falou, uma comparação implícita que surgiu, pequena, quase invisível, foi suficiente.
O ego entrou em ação imediatamente.
Não de forma explosiva. Mas estava lá.
Aquele movimento interno de querer se comparar, de medir, de imaginar cenários que não existem.
Fiquei com aquilo na cabeça por um tempo.
E quando parei para observar o que estava acontecendo, percebi que o problema não era exatamente a conversa.
Era alguma coisa que aquela conversa tinha tocado em mim.
Uma crença que eu carregava sem perceber.
A de que ela, de alguma forma, me pertencia.
Quando o “meu” começa a significar outra coisa
A gente diz “meu amor”, “minha mulher”, “meu namorado” quase sem pensar.
É só uma forma de falar.
Mas fiquei pensando no que acontece dentro da gente quando esse “meu” deixa de ser apenas uma palavra.
Em que momento ele começa a carregar uma ideia de pertencimento?
Talvez eu tenha aprendido isso muito antes de perceber que acreditava nisso.
Nas histórias de amor, nas músicas, nos filmes, nas próprias expectativas que criamos sobre estar com alguém.
Quando estamos com uma pessoa, parece natural imaginar que existe um lugar que é nosso.
E talvez exista mesmo.
Mas será que esse lugar precisa ser uma posse?
Porque quando começamos a acreditar que alguém é nosso, talvez tudo aquilo que não pertence a esse espaço comece a parecer uma ameaça.
O passado.
As pessoas que vieram antes.
As experiências que não vivemos juntos.
Até mesmo uma lembrança.
E talvez seja aí que a coisa fique estranha.
A pessoa continua sendo exatamente a mesma.
Mas alguma coisa dentro de nós começa a olhar para ela de outro lugar.
O que o passado do outro provoca em nós
A pessoa que você ama teve uma vida antes de você.
Relacionamentos, experiências, desejos, erros, descobertas.
Coisas que você não viu.
Histórias das quais nunca fez parte.
Eu sabia disso.
Sabia racionalmente.
E ainda assim, quando aquela conversa aconteceu, alguma coisa em mim reagiu como se eu tivesse chegado atrasado a algum lugar.
Como se houvesse uma história acontecendo antes de mim que eu precisasse, de alguma forma, compreender.
Ou superar.
Ou talvez apagar.
E o mais curioso é que nada estava acontecendo naquele momento.
Aquela pessoa fazia parte do passado dela.
Eu estava ali, no presente.
Mesmo assim, minha cabeça começou a criar comparações, cenários e perguntas que não tinham onde acontecer.
Uma realidade que existia apenas dentro de mim.
Por que isso incomodava tanto?
Quando percebi o que estava acontecendo, conversei com ela sobre isso.
Não como acusação.
Como observação do que estava ocorrendo dentro de mim.
Porque, olhando com um pouco mais de calma, aquilo tinha muito menos a ver com ela do que eu imaginava.
Tinha a ver com alguma coisa minha.
Uma crença que talvez eu nunca tivesse parado para olhar de frente.
Ninguém pertence a ninguém
É uma frase simples.
“Ninguém pertence a ninguém.”
Mas será que eu realmente vivo como se acreditasse nisso?
É fácil pensar assim quando nada ameaça o lugar que imaginamos ocupar na vida de alguém.
Difícil é lembrar disso quando aparece alguma coisa que mexe com o nosso medo de perder.
Talvez exista uma diferença entre estar com alguém e sentir que temos algum direito sobre essa pessoa.
Entre compartilhar uma vida e acreditar que podemos controlar tudo aquilo que faz parte dela.
Entre confiar na presença de alguém e precisar de garantias de que essa presença continuará existindo.
E talvez eu tenha confundido algumas dessas coisas.
Talvez eu tenha chamado de segurança aquilo que, em alguns momentos, era apenas a vontade de ter alguma certeza.
Mas que certeza existe quando estamos falando de outra pessoa?
Ela poderia não estar aqui.
Poderia ter escolhido outro caminho.
Poderia ter escolhido outra pessoa.
E, ainda assim, está aqui.
Por enquanto.
Não porque não possa ir.
Mas porque escolhe ficar.
Talvez exista alguma beleza nisso que eu não percebia quando estava ocupado demais tentando garantir que nada mudasse.
Soltar não significa deixar de sentir
Ainda estou aprendendo isso.
Ainda existem momentos em que o ego reage antes que eu consiga perceber o que está acontecendo.
Ainda aparecem comparações.
Ainda existem pensamentos que eu preferiria não ter.
Mas talvez o que esteja mudando seja outra coisa.
Antes, eu acreditava no pensamento assim que ele aparecia.
Agora consigo, às vezes, parar e observá-lo.
Perguntar de onde veio.
O que ele está tentando proteger.
O que existe por trás daquela vontade de comparar.
Por trás daquele medo.
Por trás da necessidade de sentir que tenho um lugar garantido.
E quando consigo fazer isso, alguma coisa muda.
Não necessariamente porque o ciúme desaparece.
Mas porque ele deixa de ser uma ordem.
Talvez amar alguém também seja aprender a conviver com o fato de que essa pessoa continua sendo outra pessoa.
Com uma história que começou antes de nós.
Com pensamentos que não conhecemos.
Com partes da vida que nunca serão nossas.
E talvez isso não diminua o que existe entre duas pessoas.
Talvez apenas torne mais evidente o que realmente existe.
Duas pessoas que poderiam estar em qualquer outro lugar.
E que, por alguma razão, escolheram estar ali.
Juntas.
Ainda estou tentando entender o que isso significa.
Talvez a pergunta não seja se a pessoa que amamos é nossa.
Talvez seja outra.
O que, dentro de nós, precisa acreditar que a pessoa que amamos é nossa?