O que fazemos com o silêncio do outro
Talvez uma das coisas mais difíceis nas relações seja lidar com aquilo que não sabemos.
A pessoa demora para responder.
Não liga.
Fica mais quieta.
Parece distante.
E nós não sabemos por quê.
É curioso como, diante de um pequeno silêncio, a nossa cabeça rapidamente começa a preencher os espaços vazios.
Talvez tenha acontecido alguma coisa.
Talvez eu tenha feito algo.
Talvez ela esteja diferente comigo.
Talvez eu não seja mais tão importante.
Talvez esteja perdendo o interesse.
Talvez.
E quando percebemos, já não estamos mais lidando com o silêncio.
Estamos lidando com a história que construímos para explicar o silêncio.
Eu me peguei pensando nisso recentemente.
Não tanto sobre o comportamento de alguém, mas sobre o que acontece comigo quando não tenho as respostas que gostaria de ter.
Porque eu gosto de entender.
Gosto de saber onde estou pisando.
Gosto de reciprocidade, de presença, de perceber que existe uma troca.
E quando isso desaparece por algum tempo, alguma coisa dentro de mim começa a procurar uma explicação.
Talvez seja insegurança.
Talvez seja apego.
Talvez seja apenas o desejo bastante humano de saber que ainda existe um lugar para nós na vida de alguém.
Mas talvez exista outra possibilidade.
Talvez nem tudo seja sobre nós.
Essa é uma coisa simples de dizer e difícil de viver.
As pessoas também têm seus próprios mundos acontecendo.
Pensamentos que não conhecemos.
Cansaços que não vemos.
Problemas que não compartilhamos.
Dias em que precisam diminuir o volume do mundo para conseguir ouvir o que está acontecendo dentro delas.
E, às vezes, quando alguém se recolhe, a nossa primeira reação é sentir que essa pessoa está se afastando de nós.
Talvez ela esteja apenas se aproximando de si mesma.
Não sei.
E talvez seja justamente esse o ponto.
Eu não sei.
Talvez maturidade seja aprender a suportar um pouco mais aquilo que não sabemos.
Sem preencher imediatamente o vazio com medo.
Sem transformar ausência em rejeição.
Sem transformar silêncio em abandono.
Sem criar uma história inteira a partir de algumas horas sem resposta.
Isso não significa que devamos ignorar aquilo que sentimos.
Se sinto falta, sinto falta.
Se alguma coisa me incomoda, ela merece ser olhada.
Se percebo que uma relação não está me oferecendo aquilo de que preciso, isso também importa.
Mas existe uma diferença entre perceber o que acontece e tentar controlar aquilo que ainda não compreendemos.
Talvez seja aí que o desapego comece.
Não quando deixamos de nos importar.
Mas quando conseguimos nos importar sem precisar controlar o resultado.
Quando conseguimos sentir saudade sem correr imediatamente atrás.
Quando conseguimos perceber a distância sem concluir que estamos sendo abandonados.
Quando conseguimos deixar uma pergunta existir sem inventar uma resposta apenas para diminuir a nossa ansiedade.
Porque, no fundo, talvez não seja o silêncio do outro que mais nos incomode.
Talvez seja o silêncio que fica dentro de nós quando não sabemos o que ele significa.
E talvez esse silêncio não precise ser preenchido.
Talvez algumas coisas precisem apenas de tempo.
O outro.
A relação.
E nós mesmos.
Talvez seja isso que significa aprender a permanecer.
Não ter todas as respostas.
Não saber exatamente o que está acontecendo.
E, ainda assim, continuar inteiro.
Sem se abandonar enquanto espera.
Sem transformar o espaço do outro em um vazio dentro de si.
No fim, talvez nem todo afastamento seja uma perda.
Às vezes, é apenas uma pausa.
E talvez a nossa maior liberdade esteja em aprender a não decidir o significado dessa pausa antes que ela termine.