Tempestade em copo d’água
Sobre meu pai, o medo de discutir e o que aprendemos antes de poder escolher
Meu pai sempre foi muito companheiro.
Era brincalhão, participava de tudo conosco. E é uma pessoa muito boa, muito honesta. Sempre foi, e continua sendo.
Mas tinha um outro lado.
Quando eu era pequeno, ele perdia a paciência muito rápido. Fazia tempestade em copo d’água. E, nessas horas, ficava muito bravo.
Aquilo me intimidava.
Eu evitava. Não lembro bem como. Às vezes me pergunto se eu tentava fazer tudo certo para ele não ficar bravo, mas não sei dizer com certeza. É uma das coisas que ainda estou descobrindo.
Por que isso voltou agora
Nesses últimos dias, várias coisas têm me levado de volta para essa relação com meu pai.
É como se tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo e me fazendo olhar para ela com outros olhos.
E comecei a prestar atenção em algumas reações minhas que eu já vinha tentando entender.
Eu evito discutir
Uma delas é que eu evito o confronto.
Se percebo que uma conversa está indo para uma discussão, prefiro não ir junto.
E tem também o não. Às vezes me pego sem conseguir dizer não.
Fico pensando se uma coisa tem a ver com a outra. Sinceramente, não sei. Não dá para dizer com precisão o quanto do que vivi pequeno chegou até aqui.
O menino não tinha escolha
Quando eu era criança, não entendia o que estava acontecendo.
Não tinha a consciência que tenho hoje. Não tinha escolha. Era tudo emoção.
Talvez não confrontar fosse a única defesa que eu tinha naquela época.
Pode ser que algumas dessas experiências continuem presentes de jeitos que ainda não consigo reconhecer. Só não sei o que disso ficou comigo e o que ficou lá atrás.
Meu pai e minha mãe
Quero deixar uma coisa clara.
Tenho uma relação muito boa com meu pai e com minha mãe, e sou imensamente grato por isso.
Mas isso não me impede de olhar para o que vivi quando era pequeno.
Só não quero ficar preso nas feridas. O que me interessa é mudar, e é nisso que tenho colocado minha atenção.
Minha filha
Hoje eu também sou pai.
E grande parte desse cuidado é por causa da minha filha.
Não quero que ela se sinta intimidada como eu me sentia.
Então tenho feito meu trabalho de casa. Observando minhas reações, tentando dizer não quando preciso, cuidando mais de mim. E prestando atenção em como eu reajo com ela.
O copo
Meu pai fazia tempestade em copo d’água.
Hoje consigo olhar para aquelas tempestades de outro jeito. E vejo que meu pai sempre foi muito maior do que elas.
Não sei quanto daquela água ainda respinga aqui.
Mas agora, pelo menos, estou olhando.
Continue lendo: A criança que nunca parou de varrer