O difícil não é parar. É sentir.

Você chega em casa depois do trabalho. Larga a bolsa, senta no sofá. Dois minutos depois está com o celular na mão sem saber bem por quê.

Ou então é fim de semana, sem compromisso nenhum, e mesmo assim aparece aquela inquietação. Aquela voz lá no fundo dizendo que você deveria estar fazendo alguma coisa. Saindo. Encontrando alguém. Aproveitando.

Aproveitando o quê, exatamente? Você não sabe. Mas ficar parado não parece certo.

A sensação de que parar é perder tempo

Tem um contador de tempo rodando na cabeça de muita gente.

A sensação de que horas sem atividade são horas perdidas. Que estar quieto é quase uma falha. Que tem gente lá fora vivendo, conhecendo pessoas, acumulando experiências, e você, parado, ficando pra trás.

Então você se move. Qualquer coisa. Uma série, uma saída, uma conversa, um scroll sem fim. Desde que seja alguma coisa.

Funciona. O desconforto passa por um tempo. Você respira.

Só que no dia seguinte ele volta.

O que você está evitando quando não consegue parar

Pensa bem: você está fugindo de quê?

Não é do silêncio em si. Silêncio é só ausência de barulho. O que incomoda é o que aparece quando o barulho some, os pensamentos que você não quis terminar, as perguntas sem resposta fácil, aquela sensação vaga de que alguma coisa na sua vida não está bem resolvida.

Enquanto você estiver ocupado, dá pra empurrar pro amanhã. A distração funciona muito bem. O problema é que ela funciona tão bem que você começa a depender dela.

E aí o que era uma escolha vira uma necessidade.

Ficar com você mesmo não é tão simples quanto parece

Tem um exercício simples, mas que muita gente evita: tira todas as distrações por uma hora. Sem celular, sem série, sem ninguém. Fica com você mesmo.

Não o que você gostaria que aparecesse. O que de fato aparece.

Pra maioria das pessoas a resposta é desconforto. Uma agitação sem objeto. Uma vontade de fazer qualquer coisa menos ficar ali. E isso já é uma informação enorme sobre você, não como julgamento, mas como dado.

Você nunca treinou ficar com você mesmo sem precisar de nada em troca.

Quando evitar vira hábito

Quando comecei a prestar atenção nesse padrão em mim, percebi que boa parte das coisas que eu chamava de querer era, na verdade, evitar. Quero ver alguém, ou quero não ficar aqui com esse pensamento? Quero sair, ou quero não sentar com esse silêncio?

Não tem resposta certa. Mas a pergunta muda tudo.

O vazio que você não olha não desaparece. Ele fica lá, esperando o próximo momento de pausa pra bater na porta de novo. A diferença é que, quando você começa a sentar com ele em vez de sair correndo, ele vai perdendo a força aos poucos. Não some, mas para de mandar em você.

No fim, é uma escolha que quase ninguém percebe

Não estou dizendo pra parar de sair, de ver pessoas, de se movimentar. Tudo isso é bom e faz parte da vida.

O que vale a pena perguntar é: você faz essas coisas porque quer, ou porque precisa delas pra não pensar?

Existe uma diferença grande entre os dois. E, no fim, só você sabe qual é qual.

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