O que você sente é carência ou é amor?

Sobre espaço, desapego e a diferença entre precisar e querer

Tem uma sensação que aparece de vez em quando nas relações e que é difícil de nomear na hora.

Não é tristeza.

Não é raiva.

É uma pontada pequena. Quase imperceptível.

Daquelas que aparecem quando algo não sai como você esperava com alguém que importa.

E a primeira pergunta que surge por baixo é sempre a mesma.

Isso que estou sentindo é carência emocional ou é vontade genuína de estar com essa pessoa?

Eu me fiz essa pergunta recentemente.

E fiquei com ela por um tempo antes de responder.

A diferença que importa

Carência e amor podem parecer a mesma coisa por fora.

Os dois geram vontade de proximidade.

Os dois fazem falta quando a pessoa não está.

Os dois criam aquela sensação de que algo está faltando.

Mas por dentro são experiências muito diferentes.

A carência nasce de um lugar de vazio.

É uma necessidade de preenchimento.

Quando a pessoa não está, o espaço que fica é pesado, ansioso, difícil de habitar.

A vontade genuína nasce de uma vida que já faz sentido por si só.

Compartilhar passa a ser um desejo, não uma necessidade.

Quando a pessoa não está, a saudade existe, mas o espaço que fica ainda é seu.

Ainda é habitável.

Aprendi a distinguir os dois prestando atenção no que sinto quando estou sozinho.

Se o silêncio pesa demais, vale investigar.

Se o silêncio é apenas silêncio, é sinal de que aquilo que sinto pela outra pessoa provavelmente nasce de um lugar mais saudável.

O espaço que cada um precisa

Tem algo que às vezes esquecemos nas relações.

A outra pessoa também tem uma vida interior que precisa de atenção.

Tem um ritmo próprio.

Necessidades próprias.

Momentos que precisam ser só dela.

E respeitar isso não é indiferença.

É uma das formas mais profundas de cuidado que existe.

Às vezes esse pedido nem é feito em palavras.

Ele aparece quando a pessoa precisa passar um tempo consigo mesma.

Quando prioriza algo que faz bem.

Quando escolhe cuidar da própria alma.

Isso não diminui o que existe entre vocês.

Pelo contrário.

Uma pessoa que cuida de si mesma chega mais inteira para a relação.

O desapego, nesse sentido, não é frieza.

É confiança.

É saber que o vínculo continua existindo mesmo quando cada um ocupa o seu próprio espaço.

O que fazer com o espaço que sobra

Quando a outra pessoa está vivendo o tempo dela, o convite é simples.

Estar no seu.

Não no sentido de preencher o vazio com distrações.

Mas de aproveitar esse espaço para cuidar da própria vida.

Ler.

Caminhar.

Criar.

Encontrar amigos.

Fazer algo que existe independentemente da relação.

Uma relação saudável é feita de duas pessoas inteiras.

Não de duas metades tentando preencher o vazio uma da outra.

Quando percebi isso com mais clareza, aquela pontada foi embora sozinha.

Não porque o sentimento diminuiu.

Mas porque entendi que ele não precisava de uma resposta imediata.

Podia simplesmente existir.

Ser reconhecido.

E depois seguir seu caminho.

Amor que dá espaço

Talvez a maior prova de que o que você sente é amor, e não carência, seja justamente esta.

Conseguir querer o bem da outra pessoa mesmo quando isso significa que ela não está com você.

Conseguir torcer para que ela tenha o tempo que precisa.

Que descanse.

Que cuide de si.

Que faça aquilo que alimenta a própria alma.

Mesmo que isso reduza o tempo que vocês passam juntos.

Isso não é resignação.

É maturidade afetiva.

E talvez seja uma das formas mais bonitas de amar.

Porque o amor não precisa ocupar todo o espaço.

Ele apenas precisa continuar fazendo sentido quando os dois voltam a se encontrar.

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