O sinal amarelo que ainda acende dentro de mim
Sobre controle, certezas e a ilusão de que um dia tudo finalmente estará no lugar
Ainda existem situações que acendem um sinal amarelo dentro de mim.
Hoje ele dura menos.
Antes podia permanecer aceso durante dias.
Agora, às vezes, dura apenas alguns minutos.
Mas ainda aparece.
Normalmente acontece quando surge uma despesa inesperada. Quando alguém da família precisa de ajuda. Quando alguma coisa foge do planejamento que eu tinha feito.
É como se uma parte de mim dissesse, em silêncio:
“As coisas podem sair do controle.”
Curiosamente, já não luto tanto contra essa sensação.
Eu a reconheço.
Respiro.
E quase sempre ela vai embora mais rápido do que antes.
Foi observando esse pequeno reflexo que comecei a fazer uma pergunta que nunca tinha feito com tanta honestidade.
O que, afinal, significa estar seguro?
A lista que fomos aprendendo
Desde pequenos aprendemos, sem que ninguém precise dizer claramente, como deveria ser uma vida segura.
Estudar.
Conseguir um bom emprego.
Guardar dinheiro.
Construir uma família.
Planejar o futuro.
Nada disso é ruim.
Pelo contrário.
São coisas importantes.
O curioso é que, mesmo quando algumas delas acontecem, a sensação de segurança parece continuar um pouco mais adiante.
Quando conseguimos uma coisa, aparece outra.
Depois mais uma.
E depois outra.
É como se a segurança estivesse sempre morando na próxima conquista.
Quando controle parece proteção
Percebo que passei boa parte da vida tentando manter tudo sob controle.
Não porque gostasse de controlar.
Mas porque acreditava que controlar significava estar seguro.
Se as contas estavam organizadas, eu respirava mais tranquilo.
Se tudo saía conforme o planejado, eu relaxava.
Mas bastava alguma coisa fugir do esperado para aquele velho sinal amarelo voltar a aparecer.
Hoje consigo enxergar isso com mais clareza.
Talvez eu nunca estivesse procurando segurança.
Talvez estivesse procurando garantias.
E garantias simplesmente não existem.
O que a vida já me mostrou
Quando olho para trás, percebo uma coisa curiosa.
Passei por dificuldades financeiras.
Passei por mudanças importantes.
Passei por momentos em que não fazia ideia de como as coisas iriam se resolver.
E, de alguma forma, elas se resolveram.
Nem sempre como eu imaginava.
Nem sempre no tempo que eu gostaria.
Mas encontraram um caminho.
Então comecei a me fazer uma pergunta que ainda continua ecoando dentro de mim.
Se a vida encontrou um caminho tantas vezes, por que continuo acreditando que desta vez será diferente?
A ilusão silenciosa
Talvez exista uma ilusão que carregamos sem perceber.
A de que um dia finalmente estaremos seguros.
Quando acreditarmos que a vida finalmente está no lugar.
Quando tivermos mais dinheiro.
Quando a carreira estiver estabilizada.
Quando as pessoas que amamos estiverem bem.
Quando…
O curioso é que esse dia parece estar sempre um pouco mais à frente.
Porque a vida continua acontecendo.
Sempre haverá alguma incerteza.
Sempre existirá algo que não depende de nós.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de segurança.
Talvez tenha sido acreditar que ela depende de um conjunto de condições externas.
O que ainda estou aprendendo
Hoje continuo planejando.
Continuo organizando a minha vida.
Continuo poupando dinheiro.
Nada disso deixou de fazer sentido.
O que mudou foi outra coisa.
Cada vez mais percebo que existe uma diferença entre agir com responsabilidade e viver tentando controlar aquilo que nunca poderá ser controlado.
Ainda existem momentos em que aquele sinal amarelo aparece.
A diferença é que agora eu o reconheço.
E lembro de tudo o que a vida já atravessou comigo.
Passei anos tentando construir uma vida onde nada pudesse me preocupar.
Hoje começo a suspeitar que essa vida nunca existiu.
Talvez segurança nunca tenha sido a ausência de incerteza.
Talvez segurança seja olhar para tudo o que já atravessei.
E confiar que, quando a próxima onda chegar, eu também vou encontrar um jeito de atravessá-la.