A espera que eu não lembro

Sobre infância, presença e uma pergunta que ainda não sei responder

Às vezes eu percebo em mim uma necessidade que não sei explicar direito.

Uma mensagem, uma ligação, um sinal de alguém que eu gosto. Não é o tempo todo, mas quando aparece, é como se eu precisasse daquilo para ficar tranquilo.

E quando eu olho com mais calma, percebo que nem sempre quero saber como a outra pessoa está. Às vezes eu só quero uma resposta. Quero saber que alguém está pensando em mim.

Comecei a me perguntar de onde vem isso.

O pai que levava a gente para jogar bola

Quando eu penso na minha infância, meu pai aparece muito.

Ele levava a gente para jogar bola. Saía com a gente a pé, porque não tínhamos carro. Era assim que ele se conectava com a gente, pelo futebol, pela rua, pelo caminho.

Eu me lembro dele presente.

A mãe que estudava à noite

Minha mãe aparece de outro jeito.

Ela trabalhava e estudava, e estudava à noite. Estava transformando a carreira dela para que a gente tivesse um futuro melhor. Eu e meu irmão éramos pequenos, cinco, seis anos.

Ela foi uma super mãe. Não tenho nenhuma mágoa, pelo contrário. Eu sou fã dela. Admiro muito tudo o que ela fez.

Mas ela não estava muito presente. Pelo menos eu não sentia essa presença.

Pode faltar alguma coisa sem ninguém ter errado?

É aqui que eu fico.

Não é uma lembrança. É uma pergunta que comecei a fazer agora: será que, naqueles anos, faltou um pouquinho daquele carinho de mãe?

Não por culpa dela. Ela estava fazendo o que precisava ser feito, e fez por nós.

Eu era pequeno.

Não tenho uma lembrança clara de ficar esperando por ela. Não me vejo na janela, não me vejo chorando na porta. O que eu tenho é a possibilidade de que essa espera tenha existido sem que eu guardasse a cena.

Às vezes me pergunto se existe uma ferida de abandono em mim. Não sei se é isso que estou tentando compreender.

Está tudo certo com a minha história.

E mesmo assim eu continuo olhando para essa necessidade de resposta, de sinal, de alguém pensando em mim. Não sei se ela nasceu ali, naquelas noites em que minha mãe estava estudando.

Não sei se existe uma ferida materna em mim.

O que eu sei é que eu não lembro da espera.

E começo a desconfiar que ela lembra de mim.


Continue lendo: Nem toda emoção fala sobre o presente

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