Quando o medo de errar começa a jogar por você
Sobre pressão, performance e a arte de continuar jogando mesmo sabendo que você pode errar
Eu jogava futebol.
E era bom.
Não digo isso por vaidade. Digo porque é importante para o que vem depois.
Tinha qualidade técnica. Sabia jogar. Mas havia algo que atrapalhava tudo isso de forma consistente.
O medo de errar.
Nos jogos em que me sentia leve, sem pressão, tudo acontecia naturalmente. Um passe certo aqui, uma jogada bem resolvida ali. O corpo fazia aquilo que já sabia fazer.
Mas bastava a pressão aumentar para alguma coisa mudar.
Quando eu começava a pensar que precisava acertar, parecia que deixava de jogar e passava apenas a tentar não errar.
E era justamente aí que o erro aparecia.
Dois jogos bons.
Cinco jogos ruins.
A diferença entre eles quase nunca estava na técnica.
Estava na conversa que acontecia dentro da minha cabeça.
O paradoxo do erro
Existe um paradoxo curioso nisso tudo.
Durante muito tempo achei que o medo de errar servia para me proteger do erro.
Hoje começo a pensar exatamente o contrário.
Talvez o medo de errar seja, muitas vezes, o que cria o ambiente perfeito para que ele aconteça.
É curioso.
Quanto mais eu tentava controlar o erro, menos natural tudo ficava.
O corpo já sabia o que fazer.
Quem atrapalhava era a cabeça.
E talvez isso não aconteça apenas dentro de um campo de futebol.
Acontece quando travamos antes de uma apresentação.
Quando adiamos um projeto importante.
Quando pensamos tantas vezes antes de falar que acabamos dizendo exatamente o que não queríamos.
Às vezes, sem perceber, o medo começa a jogar por nós.
Por que o erro pesa tanto?
Foi essa pergunta que ficou comigo.
Por que um único erro parece apagar tantos acertos?
Por que uma falha ocupa tanto espaço dentro da nossa memória?
Talvez porque raramente olhemos apenas para o erro.
Quase sempre misturamos o erro com a imagem que fazemos de nós mesmos.
Como se uma decisão errada pudesse dizer quem somos.
Como se um momento tivesse força suficiente para contar toda a nossa história.
E talvez seja justamente esse o peso que carregamos.
Não o erro.
Mas o significado que damos a ele.
Aprender ou permanecer
Com o tempo percebi que existe uma diferença importante.
Uma coisa é aprender com um erro.
Outra é morar dentro dele.
Aprender exige coragem para olhar, compreender e seguir.
Morar no erro significa voltar a ele todos os dias, revivendo a culpa como se isso pudesse mudar alguma coisa.
A culpa pesada raramente ensina.
Ela apenas ocupa o espaço que poderia ser usado para tentar novamente.
Hoje, depois de errar, procuro fazer uma pergunta diferente.
Em vez de pensar “como pude errar isso?”, prefiro perguntar:
“O que posso fazer diferente da próxima vez?”
Parece uma mudança pequena.
Mas muda completamente a conversa que acontece dentro de nós.
Talvez seja isso que chamamos de liberdade
No futebol aprendi isso da forma mais concreta possível.
Os meus melhores jogos não eram aqueles em que eu tinha menos medo.
Eram aqueles em que eu já tinha aceitado que podia errar.
Curiosamente, foi justamente quando deixei de lutar contra essa possibilidade que alguma coisa dentro de mim relaxou.
Talvez a aceitação faça isso.
Ela não elimina o erro.
Ela apenas impede que ele ocupe um espaço maior do que merece.
Hoje penso que ser humano talvez seja exatamente isso.
Errar.
Aprender.
Seguir.
Sem transformar cada falha numa sentença sobre quem somos.
Talvez a vida nunca tenha esperado que jogássemos uma partida perfeita.
Talvez ela apenas espere que continuemos entrando em campo.